domingo, 4 de abril de 2021

A Cartomante - Machado de Assis

 

HAMLET observa a Horácio que há mais causas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

- Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade.

- Errou! interrompeu Camilo, rindo.

- Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois.

- Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.

- Onde é a casa?

- Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.

Camilo riu outra vez:

- Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranquila e satisfeita.

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.

- O senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor. Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; - ela mal, - ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: - a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.

- Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tomar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.

- Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, - repetia ele com os olhos no papel.

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, - o que era ainda pior, - eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.

"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..."

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:

- Anda! agora! empurra! vá! vá!

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?

Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:

- Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

- E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não...

- A mim e a ela, explicou vivamente ele.

A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.

- As cartas dizem-me...

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.

- A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.

Esta levantou-se, rindo.

- Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.

- Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?

- Pergunte ao seu coração, respondeu ela.

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.

- Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.

- Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer causa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e continuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. s vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação:

- Vá, vá, ragazzo inflamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

- Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: - ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.



Análise de Auto da Índia

A obra de Gil Vicente é a representação de um fato inspirado na vida real e no sentimento comum, registrando as falhas humanas no sentido de fazer uma crítica construtiva ao comportamento de todas as camadas sociais (nobreza, clero e povo). A criação das personagens denuncia e critica, funcionando como arma de combate social. O espectador deveria ver-se na obra e encontrar seus defeitos analisados, para, assim, poder alterar a sua conduta.

Em "O Auto da Índia", Vicente mostra tanto o comportamento imoral da esposa na ausência do marido, como o efeito maléfico que a expansão ultramarina causava na ordem social e moral do país, facilitando a destruição de princípios do ambiente familiar. A Ama é uma mulher hipócrita, devassa, incapaz de controlar suas vontades sexuais durante a viagem do marido, enganando tanto o companheiro, como também os dois amantes, pois o Castelhano não sabe da existência de Lemos e vice-versa. Apesar de seu procedimento inadequado e imoral, tenta transmitir uma imagem de mulher virtuosa. A falsidade é tanta que ela garante ao marido ter rezado para que nada de mau lhe acontecesse, permanecendo os três anos recatadamente, esperando o seu retorno, além de fingir ciúme pelas supostas aventuras do marido, com outras mulheres, na Índia.
A personagem vicentina apresenta atitudes notavelmente opostas às de Penélope, do clássico "Odisseia" de Homero, mulher que aguarda esperançosa e incansavelmente a volta de Ulisses, e mesmo depois de transcorrido bastante tempo, dispensa, inclusive, seus pretendentes e fia seu bordado com verdadeiro recato. Mas a obra "Odisseia" trata-se da narrativa de um feito grandioso, extraordinário, chegando a ser um tanto onírico. O narrador transmite um episódio heroico da história de um povo, e sua intenção é exaltar as qualidades das personagens; portanto, ao contar as aventuras de Ulisses, jamais colocaria em evidência defeitos ou características perversas das personagens, mostrando Penélope como fiel e recatada, e Ulisses, forte e guerreiro.
Pelo fato de retratar e denunciar a sociedade da época, a obra de Gil Vicente expõe diversas situações e comportamentos condenados e censurados pela própria sociedade, como acontece com os romances do Realismo- Naturalismo, que também discorrem a respeito de condições reais, representando problemas existentes. As personagens típicas permitem estabelecer relações críticas entre obra e realidade, porque embora as personagens sejam seres ficcionais e individuais, passam a representar comportamentos e a ter reações típicas de uma determinada realidade, sendo as narrativas ambientadas num tempo contemporâneo ao escritor, tornando a crítica mais próxima e concreta.
Os romances realistas "Madame Bovary", "O Primo Basílio" e "Ana Karenina" retratam a questão do adultério vivido pelas personagens infelizes e entediadas com o casamento aparentemente perfeito. Ema, Luísa e Ana sentem o vazio, a monotonia, a desilusão e a frustração do matrimônio, por isso não conseguem fugir às conquistas e aos encantos de seus respectivos amantes, buscando satisfação na relação extraconjugal.
De acordo com o Determinismo, elaborado por Hipólito Taine, o homem é um produto de leis físicas e sociais; apesar de um ser pensante, ter liberdade de decisões e ser responsável por suas ações, tanto o meio como a situação e o seu instinto biológico podem interferir e contribuir em suas escolhas. A determinação dos atos do indivíduo pertence à força de certas causas, externas e internas. Pensamentos e ações estão relacionados aos impulsos, caracteres e experiências que definem a personalidade.
Com as personagens criadas por Flaubert, Eça de Queirós e Tolstoi, acontece o seguinte: A falta de perspectiva e os anseios por emoções e aventuras associados aos galanteios dos amantes e à ausência dos maridos permitiam as condições necessárias e suficientes para a existência de paixões fora do casamento. As três personagens morrem ao final dos romances. Ema e Ana cometem suicídio, já Luísa fica doente e falece.
Em "O Auto da índia", a Ama vive uma situação semelhante, porém o seu final não é trágico, pois Gil Vicente, mesmo tentando desvendar o que havia de mau na sociedade, preocupado com a correção dos costumes, adotava como lema uma famosa frase de Plauto, dramaturgo latino: "Rindo, corrigem-se os costumes". A punição da Ama acabaria com o efeito cômico, característico da farsa, e o castigo não consertaria o seu erro. Seria importante evitar as condições para que o erro não fosse cometido, já que ela possui personalidade nem um pouco admirável, propiciando a prática do adultério. A ausência do marido cria a situação essencial para que sua leviandade se transforme em infidelidade conjugal.

Fontes:
CIDADE, Hernâni. A Literatura Portuguesa e a Expansão Ultramarina. 2. Ed. Coimbra, Armênio Amado, 1963.

MOISÉS. Massaud. A Literatura Portuguesa através dos Textos. São Paulo. Cultrix, 1978.

SARAIVA, Antônio José. Iniciação à Literatura Portuguesa. São Paulo. Companhia das Letras. 1999.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Gil Vicente em Auto da Índia


Há alguns anos fiz a adaptação do texto de Gil Vicente, o Auto da Índia para encenar com meus alunos do Ensino Médio, quando estávamos estudando Humanismo e Gil Vicente. Vejam como ficou:

AUTO DA ÍNDIA (adaptação)

Á farsa seguinte chamam Auto da Índia . Foi fundada sobre que uma mulher, estando já embarcado para a Índia seu marido, lhe vieram dizer que estava desaviado e que já não ia; e ela de pesar, está chorando e fala-lhe uma sua criada. Foi feita em Almada, representada à muito católica rainha Dona Lianor. Era de 1509 anos. Entram nela estas figuras: Ama, Moça, Castelhano, Lemos, Marido.

Moça:
(chorando) - Jesus! Jesus! O que está acontecendo?
                                 E  porque o amo já vai partir?

Ama: Eu lá vou chorar por isso? Já vai tarde!

Moça: Por minha alma que pensei que a senhora chorava pelo amo!

Ama: Por que eu chorarei por esse demo?
           Até parece que fico triste com isso! (com cinismo)

Moça: Então por que estais tristes?
            Diga-me, pela sua vida!

Ama: Ora, deixe-me! Estão dizendo que ele não vai mais. (triste)

Moça: Quem disse essa mentira?

Ama: Ah, disseram-me que com certeza ele não partirá agora!

Moça: Como, se eles já estão em Restelo? Só se virem a nado!

Ama: Ah, queria tanto que ele fosse embora!

Moça: Não se preocupe, ele já muito vai longe!

Ama: Que o diabo o leve para a índia, pois meu coração está amargurado, parece que vai sair de mim!

Moça: Não fique assim, eu irei saber se é verdade!

Ama: Vá, vá com minha bênção.

(Vai Moça e fica Ama dizendo)

Ama: Rogo por Santo Antonio que nunca mais ele volte aqui!
           Quem não se não enfada
           De um homem desse?

Moça: (vem cantando) - Dê-me um prêmio, Senhora, 
                                        Ele já vai longe, em alto mar! 

Ama: Te dou uma touca de seda.

Moça: Ou, quando ele voltar dê-me do que ele lhe trouxer!

Ama: Nem me lembre desse dia!
           Agora vamos é aproveitar! (alegre)

Moça: (falando ao público, à parte) - Virtuosa está minha Ama!
                                                              Tenho até pena do amo!

Ama: O que tu estás falando aí?

Moça: Ah, nada, falo com esta cama!!! (fala disfarçando)

Ama:  Essa cama, sei ...
            Me dá essa agulha aí (mostrando para o público) Eu não fiarei um fio sequer, ele me              deixou sem nada!

Moça: (falando à parte para o público) - Mentira!!!
            Deixou-lhe para três anos: trigo, azeite, mel e                                                                             panos.

Ama: Que droga tanto falas? Não estou entendendo?

Moça: Ah, estou dizendo que quem fica assim sem nada como a senhora .... coitada, né?

Ama: Ah, ah, ah, ah, ah!
          Estás muito graciosa!
          Quem é moça e formosa não fica chorando a má sorte.
          Se ele foi viajar ...
          Quem vai esperar tanto?
          Que Deus me perdoe, na hora de minha morte.
          Mas envelhecer esperando pelo vento?
          Serei uma imbecil se fizer o contrário!

Castelhano: Paz seja nesta casa!

Ama: Você? Pensei que fosse alguém!

Castelhano: Não sou nada para a senora?

Ama: Bem que ventos foram esses que lhe trouxeram?
           Não me diga que quer ficar aqui?

Castelhano: Vim falar com a senora, pois desde aquele dia morro de saudade!!

Ama: Não me faça rir! Ande vá embora!

Castelhano: Oh, pela luz de todo Portugal,
                      Pielo amore que sinto pela senora, não me mande ir embora. Sei que seu                                  marido já viajou.

Ama: Sim, ele foi antes de ontem.

Castelhano: Que yo diabo o leve!
                      Para minha felicidade, posso gozar com esta alegria!

Ama: (para a moça) -  Vai ver o cachorro que está lambendo as tigelas!

Moça: São os gatos que estão lambendo as tigelas.

Castelhano:  O que há com a senora, falo em alho e a senora vem com bugalhos!

Ama: Se o senhor só fala besteira, falaremos em quê?

Castelhano: Não me faça uma desfeita, senão faço uma asneira
                     A senora pensa que sou o quê?
                     Sou homem e muito homem,
                     Trago no corazon um leon!

Ama: Esta bem, queres passar a noite aqui?
           Ainda está muito cedo; venha mais tarde, então conversaremos.

Castelhano: A que horas posso vir?

Ama: Ás nove horas em ponto.
           Atira uma pedrinha na janela do meu quarto,
           Então lhe abrirei de muito boa vontade:
           pois você é homem de verdade
           não o deixarei na mão.

Castelhano: Sabes o que ganhas com isso?
                      Yo mundo! Yo mundo é todo seu! 
                      Pensa que só tenho essa roupa que vês?
                      Tenho muito mais do que pensas!
                      Beijo suas mãos, senora, com sua licença!

Ama: Vá embora e volte mais tarde!

Moça: Jesus! Como é fanfarrão!
            Vai ver que esse demônio é ladrão. Não se fie nele!

Ama: Ah, já lhe prometi abrir a janela à noite! (fala com cinismo)
          Ah, lembra daquele meu antigo namorado? Ele esteve aqui.

Moça: Quem? Aquele conquistador sombreiro? 
            Ele é safado, não pensa em outra coisa, o coitado, senão em dinheiro!

Ama: Ele não é desse tipo, tu estás enganada!

Moça: Pois sim! Ele está para aparecer aqui de novo!

Lemos: Ô de casa!

Ama:  Quem está aí?

Lemos: Vosso apaixonado, minha senhora!

Ama: Oh, que tamanha mesura!
           Sou rainha, por acaso?

Lemos: Você é minha imperadora!
               Mas como estás?

Ama:  Meus marido foi-se à Índia.

Lemos: A senhora está tão bela!
              O que me pedir eu faço.

Ama: Peço que vá embora!

Lemos: Quem está atirando pedras na janela?

Ama: (disfarçando) -  São meninos que vivem brincando na rua.

Lemos:  Não me diga, minha senhora!!!

Ama: Vá, vá aqui para a cozinha que estão me chamando.

Castelhano:  Abra-me la janela, la senora prometeu abrir!!!

Ama: Fale baixo! Infelizmente, não posso deixá-lo entrar agora,
           Meu irmão está aqui! Disfarce, disfarce!!!

                           (À parte para o público) 

           Ora viste o azarado? Que falta de sorte!!!

Lemos: Com que a senhora está falando?

Ama: Com ninguém (disfarçando). 
          O senhor quer jantar? Eu não tenho nada que lhe dar.

Lemos: Mande a Moça ao mercado comprar tudo o que está faltando.
              Pois dinheiro é que não falta! (começa a cantar alto)

Ama: O senhor não pode cantar mais baixo?

Lemos:  Ora, deixe-me cantar, senhora!

Ama: O que a vizinhança vai dizer, que quando meu marido não está,
           Ponho o senhor para cantar na minha casa!

                     (Ouve uma pedra na janela)

          Vá para esse outro quarto, que já estou ouvindo barulho,
          Tenho tanto medo da  falação do povo!!!

                 (Chega-se à janela e fala baixo)

Ama: Meu irmão ainda está aqui!

Castelhano: Que diabo ele está fazendo la essa hora?
                      Não demora vai amanhecer!

Ama: Venha aqui outro dia!

Castelhano:  Ah, senora, que raiva sinto de vós!
                      Abra-me la janela, pielo amore de Dios!

Ama: Não posso, volte amanhã à noite!

Castelhano: Assossiega, corazon! Dorme, leon!
                     Juro que la próxima vez isto não ocorrerá!
                     Pois vou destruir lo mundo, queimar la casa, depois queimar la cidad!

Ama: Por que tanta jura? Isso é só conversa!

Lemos: O que é isso? O que está acontecendo aí? (fala desconfiado)

Ama: (disfarçando) - Não é nada! Já está para amanhecer, não está na hora de o senhor ir embora? Já namoramos, já nos divertimos, volte outro dia ...

(Lemos se despede e sai)

Moça: (À para público) - Oh, que mesuras tamanhas!
            Quantas artes, quantas manhas, sabe fazer minha ama!
            Um na rua, outro na cama!

Ama: Que falas aí?

Moça:  (disfarçando) -  Nada, estou falando com meus botões que já fazem dois anos que meu amo partiu. Não vai demorar muito o amo há de voltar para casa. 
              Senhora, irei ver se o amo já está chegando! (Sai)

Ama: Mas que graça seria, se meu marido voltasse vivo a Lisboa para minha companhia!
           Isto não pode acontecer, quero mais é que ele morra! 
           Vai, vai comprar o que comer, tens muito o que fazer, não demore!

Moça: Aí, senhora, venho morta! O amo chega hoje aqui!

Ama: Má notícia tu me trazes, sua excomungada torta!

Moça: A embarcação em que ele foi, vem com muita alegria.
            Juro por minha vida, minha senhora, que não falo mentira.

Ama: Que minha mãe me mate se eu der uma prova de alegria com a volta dele.
           Ele não vai ter nada de mim, nem o que comer!

Marido:  Olá!

Ama: (para o público, falando baixo) - Que péssima hora é esta, ele chegou!
           Quem é?

Marido:  Homem de pé!

Ama: (para o público) - Quer fazer graça é?! Sobe, sobe para cima!

Moça: É o nosso amo, como veio rápido!

Ama: Teu amo? Jesus, Jesus!
            Pedes a ele tua recompensa!

Marido: Abraçai-me, minha amada.

Ama: Jesus, como estás negro e tostado!
           Não vos quero, não vos quero!

Marido: Mas eu quero a você, seja minha mulher!

Ama: Moça, o que é que tu estás olhando? 
          Vai depressa fazer logo a comida, enquanto conversamos!
           (disfarçando) - Ora como foi por lá?

Marido: Passei por muitas aventuras!

Ama: (fingindo) - E eu, oh quanto chorei, chorei muito quando a armada foi embora.
           E quando vi que ias mesmo partir, Jesus, eu fiquei doente, três dias não comi nada, minha alma queria sair.

Marido: A cem léguas daqui surgiu uma tormenta que nunca vi igual.

Ama: Isso foi na quarta-feira?

Marido: Sim, e começou de madrugada.

Ama: Pois é, eu fui de madrugada a nossa Senhora d'Oliveira, lhe prometi uma missa, e na quinta-feira fui ao Espírito Santo a outra missa também.
          Chorei tanto que ninguém nunca viu tanto pranto.
           Correste daquela tormenta?

Marido: Durou três dias. Demos a volta pelo mar
               A armada voava que o mar se espedaçava!
               Pelejamos e roubamos, corremos muitos perigos!

Ama: (com cinismo) - Olha só, os três dias, foram as minhas três romarias!
           O senhor lá correndo perigo e eu aqui a esmorecer, fazendo mil promessas, mil choros, mil orações!

Marido: Assim como havia de ser.

Ama: Juro que de tanta saudade nem pão não comia
           Ficava triste a cada dia!
           Carne, então, nunca comi!
           Onde não há marido tudo é tristeza, não há prazer nem alegria!
           E o senhor, lembrava de mim lá?

Marido: E como?

Ama: Duvido! Lá tem tantas índias formosas,
           E eu aqui triste, encerrada nesta casa, por causa de minha honestidade!

Marido: Ah, que nada, lá só há mortes, tantas brigas ...

Ama: Mas voltaste muito rico ...?

Marido:  Se não fosse o capitão, tinha trazido a minha parte: um milhão ...

Ama: Não me faça rir! Sua vida vale mais que qualquer riqueza!
           Louvado seja o Senhor que me trouxeste de volta!
           A armada veio muito carregada?

Marido: Vem tão doce e embandeirada!

Ama: Vamos lá, quero ir ver.

Marido: Se você sente prazer nisso, vamos!

Ama: Sim, sim, pois estou muito aborrecida aqui dentro de casa.

                     (Vão-se a nau e fenece esta farsa)        

sexta-feira, 19 de março de 2021

O defunto autor


Memórias Póstumas de Brás Cubas é o maior clássico da literatura realista de língua portuguesa. Publicado em 1881, este livro marca o início oficial do realismo no Brasil e ainda serve de divisão entre a fase romântica e a realista na obra autor, marcando o início da fase mais madura e qualificada de Machado.

A estética realista-naturalista predominou na segunda metade do século XIX. Após a euforia romântica idealista do início, o século XIX retomava uma visão de mundo baseada na razão e na observação objetiva da natureza. O cientificismo dominava as filosofias deste período, marcado por avanços tecnológicos e urbanização acelerada. A obra mostra, de forma realista, portanto, não idealizada, a decadente elite burguesa do Rio de Janeiro, ainda atrelada ao conservadorismo. Assim, o escritor ironiza os costumes burgueses de sua época, enquanto critica a hipocrisia e futilidade dessa classe.

Surgem então, nesse período, dois tipos de narrativas: o romance social, também chamado de romance naturalista, que analisava predominantemente o comportamento dos indivíduos em seu convívio na sociedade, e o romance psicológico, também chamado de romance realista, que analisava prioritariamente as contradições e angústias internas dos indivíduos. Embora todos os romances da época apresentassem características dos dois tipos de análise, sempre é possível determinar qual delas (social ou psicológica) prevalece. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas prevalece a narrativa psicológica das personagens, caracterizando-se, portanto, como romance realista. 

Memórias Póstumas é uma narrativa confusa e sem linearidade. O personagem principal, como sugere o título, resolve, depois de morto, contar a história da sua vida através de uma seleção dos episódios mais relevantes, desde o seu nascimento até a sua morte. Essa narrativa não segue, porém, nenhuma sequência cronológica. Ele inicia pelo seu delírio e morte, depois conta o seu nascimento e vai alternando, sem qualquer critério lógico, episódios de diversas fases da sua vida, sempre com uma alta dose de humor e visão pessimista.

A narrativa é realizada em primeira pessoa, ou seja, há um narrador personagem que é também o protagonista da história, o finado autor. Como Brás Cubas está contando a sua própria história, ele é o que chamamos de “narrador não confiável”. Todos os fatos e demais personagens nos são apresentados a partir de sua ótica pessoal e subjetiva. 

A característica mais marcante do estilo machadiano é a digressão. A narrativa de Machado de Assis é constantemente interrompida por comentários metalinguísticos, intertextualidades, histórias paralelas e, principalmente, análises filosóficas da sociedade e do indivíduo. Isso faz com que seus enredos fiquem sempre fragmentados e embaralhados. Essa dificuldade de leitura, no entanto, é compensada pelo humor inteligente e pela estrutura dinâmica e moderna de seus livros.

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas o foco narrativo centra-se no finado autor que, por sua condição de morto, não se compromete com a linearidade nem com a suposta seriedade dos vivos. Inspirado em Tristam Shandy, esse romance - digressivo por excelência e afeito à exposição exuberante de teorias - apresenta um herói demoníaco na acepção lukacsiana do termo, que convoca o leitor a acompanhá-lo nos volteios de sua subjetividade.

"[...] Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque não chegamos à parte narrativa dessas memórias. Todavia, importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado."

Nota-se que nesse passeio, o narrador está sempre a tomar o leitor pela mão, convida-o, pede-lhe mais que paciência, tolerância, provoca-o, caçoa dele, mas antes de tudo o tem em alta conta de espectador íntimo da sua capacidade de narrar. 

A característica mais marcante deste livro é o pessimismo. Tudo é analisado a partir de uma visão negativa, seja em relação ao comportamento social ou aos dramas psicológicos das personagens. No entanto, esta visão pessimista fica, muitas vezes, disfarçada ou escondida sob a presença marcante do humor, principalmente a ironia. A observação dessa dicotomia pessimismo e humor é a principal chave para uma leitura compreensiva desse clássico da literatura brasileira.

Se o leitor não ficar atento, pode terminar a leitura do livro com uma visão positiva do protagonista. Uma leitura cuidadosa, no entanto, mostra que Brás Cubas é um boa vida, arrogante e incompetente, membro de uma elite endinheirada e improdutiva. Essa situação privilegiada permite que Brás Cubas deboche da sociedade e seus membros com uma ironia sarcástica que não poupa ninguém.

Por fim, a obra configura-se em crítica à elite burguesa carioca do século XIX. Brás Cubas é o seu representante — dono de escravos, fútil, superficial, preocupado com aparências. Ele segue a trajetória de um burguês da época: tem uma amante com quem gasta dinheiro, estuda na Europa, consegue um diploma, tenta a carreira política e, para isso, precisa de um casamento. Além disso, valoriza as aparências, o título, a origem social, sem contribuir, de fato, para o crescimento do país.

Fontes:

Português. com

Micheliny Verunschk, em Discutindo a Literatura



quarta-feira, 10 de março de 2021

Machado de Assis no cinema e na TV

 Não são raros os lançamentos de filmes, minisséries, novelas ou peças teatrais inspirados nos textos de Machado.

Fiz aqui uma seleção de algumas das obras inspiradas no maior escritor da Língua Portuguesa. Vamos a elas:

1. Quincas Borbas 

2. O enfermeiro

3. Noite de Almirante


sexta-feira, 5 de março de 2021

Que tal ler Machado de Assis em quadrinhos?



Que tal ler Machado de Assis em quadrinhos?  
Apesar de muitos ainda insistirem com o preconceito contra esse gênero, a verdade é que os quadrinhos são uma excelente porta de entrada para o universo machadiano, já que para os iniciantes no mundo da leitura, os textos de Machado podem apresentar uma certa dificuldade.

É inegável que os quadrinhos motivam e incentivam adolescentes e adultos a iniciarem suas viagens literárias e, assim vem contribuindo para o aumento da leitura dos clássicos literários, porém está faltando divulgação e incentivo.

Machado de Assis não poderia ficar de fora dessa nova roupagem literária. Em seu artigo "Heranças Machadianas", na Revista Discutindo Literatura, edição especial, Júlio Rasek, diz:

"No teatro, na música, nas histórias em quadrinhos ou no cinema, o legado de Machado de Assis ganhou novas versões, pois a herança deixada por ele vai muito além dos textos que ele produziu". Para ele talvez o maior  legado de Machado seja ter criado um universo ímpar, que hoje impressiona ao ultrapassar com tanto vigor e atualidade as fronteiras conhecidas como Literatura. Isso é notado, por exemplo, na versatilidade de suas histórias e na humanidade trágica e cômica de seus personagens, prontos a vestirem uma roupagem moderna. 

Não importa o segmento artístico, a estética criada pelo imortal literato orbita em um espaço completamente inexplorado e repleto de possibilidades. Não é por acaso que, nos últimos anos, a fantasia machadiana vem sendo recontada de maneira totalmente nova. É o caso das histórias em quadrinhos - as HQs -, adaptação da obra de Machado de Assis provavelmente impensada pelo autor, até porque, assim como o cinema e a televisão, tais meios não faziam parte da sua realidade."


Portanto, ler Machado de Assis em quadrinhos abre um leque de possibilidades de leitura e melhor aina, abrange um público leitor bem maior. 

Já temos nas livrarias várias obras machadianas adaptadas para os quadrinhos, entre elas temos: O Alienista, Conto de escola, Uns Braços, Causa Secreta, O enfermeiro, A Cartomante, om Casmurro, Memórias Póstumas e Brás Cubas e Quincas Borbas.

Então vamos aproveitar e começar a viajar nesse universo maravilhoso de Machado de Assis, abra o link abaixo e comece a explorar essa nova roupagem de Machado:

https://issuu.com/editorapeiropolis/docs/conto_de_escola/2








Características da obra Machadiana (2)


Machado de Assis busca inspiração nas ações rotineiras do homem. Penetrando na consciência das personagens para sondar-lhes o funcionamento. Machado mostra-nos de maneira impiedosa e aguda, a vaidade, a futilidade, a hipocrisia, a ambição, a inveja e a inclinação ao adultério através de suas personagens. Como o escritor capta sempre os impulsos contraditórios existentes em qualquer ser humano, torna-se difícil classificar suas personagens em boas ou más, além disso, vasculhando a burguesia da época que vivia de acordo com o convencionalismo, Machado desmascara o jogo das relações sociais, enfatizando o contraste entre a essência e a aparência. O sucesso financeiro é quase o objetivo da vida dessas personagens.

Características:

1 - Quanto à visão de mundo:

1.1- Pessimismo: revela uma visão trágica e amarga da existência humana. Esse pessimismo é uma constatação de que o homem se deforma por causa de um sistema social que o leva a torna-se hipócrita para ser aceito pela opinião pública.

Ex: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

1.2- Humor: é uma espécie de válvula de escape diante da constatação da miserável condição humana. Esse humor, ás vezes irreverente, pode transformar-se em ironia e tem função crítica, pois leva o leitor a refletir sobre a condição humana.

Ex: " Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos."  "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

1.3- Denúncia da hipocrisia e do egoísmo: no universo machadiano, os bons sentimentos escondem sempre outra face, a do egoísmo e da dissimulação.

Ex: "Quem não sabe que o pé de cada bandeira pública, ostensiva, há muitas vezes outras bandeiras modestamente particulares que se hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não raras vezes lhe sobrevivem?" (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

1.4Visão da natureza como mãe e inimiga: a natureza - considerada aqui como todas as forças que estabelecem e conservam a ordem do universo - é ao mesmo tempo mãe (vida) e inimiga (morte) do homem. Mãe porque criou o ser humano; inimiga, porque mantém-se impassível diante do sofrimento, que só terá fim com a morte. A natureza mata quando não necessita mais do indivíduo. (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

2. Quanto ás personagens:

  • Suas personagens, longe de serem heróis ou heroínas defensores dos fracos, perfeitos e íntegros, são criaturas complexas. São homens e mulheres comuns, dotados de sentimentos contraditórios, complexos, como qualquer ser humano. São sujeitas à atuação das forças sociais, como por exemplo: paixão pelo dinheiro, egoísmo, medo da opinião alheia, dissimulação, vaidade.

Ex: "[Marcela] negociava com o único fim de acudir à paixão pelo lucro, que era o verme roedor daquela existência." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

       "A multidão atraía-me, o aplauso namorava-me." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

3. Quanto ao processo narrativo:

  • Machado preocupa-se muito mais com a análise das personagens do que com a ação. Por isso, em suas narrativas, pouca coisa "acontece": há poucos fatos em suas histórias e muita reflexão.

  • Outra característica a prosa machadiana é a conversa com o leitor e a análise que o autor faz da própria narrativa. Muitas vezes o narrador interfere na história que conta: conversa com o leitor, antecipa fatos, abrevia ou alonga os capítulos e faz reflexões, que aparentemente, nada têm a ver com a história.

Ex: "Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

            "Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contradição cadavérica ..." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

4. Quanto à temática:

  • Nos contos e romances machadianos da segunda fase, os temas são os seguintes: a relatividade dos conceitos normais, o tédio, a loucura, a vaidade, o adultério, a contradição entre aparência e essência, a predominância do bem sobre o mal.