Há alguns anos fiz a adaptação do texto de Gil Vicente, o Auto da Índia para encenar com meus alunos do Ensino Médio, quando estávamos estudando Humanismo e Gil Vicente. Vejam como ficou:
quinta-feira, 25 de março de 2021
Gil Vicente em Auto da Índia
Há alguns anos fiz a adaptação do texto de Gil Vicente, o Auto da Índia para encenar com meus alunos do Ensino Médio, quando estávamos estudando Humanismo e Gil Vicente. Vejam como ficou:
sexta-feira, 19 de março de 2021
O defunto autor
Memórias Póstumas de Brás Cubas é o maior clássico da literatura realista de língua portuguesa. Publicado em 1881, este livro marca o início oficial do realismo no Brasil e ainda serve de divisão entre a fase romântica e a realista na obra autor, marcando o início da fase mais madura e qualificada de Machado.
A estética realista-naturalista predominou na segunda metade do século XIX. Após a euforia romântica idealista do início, o século XIX retomava uma visão de mundo baseada na razão e na observação objetiva da natureza. O cientificismo dominava as filosofias deste período, marcado por avanços tecnológicos e urbanização acelerada. A obra mostra, de forma realista, portanto, não idealizada, a decadente elite burguesa do Rio de Janeiro, ainda atrelada ao conservadorismo. Assim, o escritor ironiza os costumes burgueses de sua época, enquanto critica a hipocrisia e futilidade dessa classe.
Surgem então, nesse período, dois tipos de narrativas: o romance social, também chamado de romance naturalista, que analisava predominantemente o comportamento dos indivíduos em seu convívio na sociedade, e o romance psicológico, também chamado de romance realista, que analisava prioritariamente as contradições e angústias internas dos indivíduos. Embora todos os romances da época apresentassem características dos dois tipos de análise, sempre é possível determinar qual delas (social ou psicológica) prevalece. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas prevalece a narrativa psicológica das personagens, caracterizando-se, portanto, como romance realista.
Memórias Póstumas é uma narrativa confusa e sem linearidade. O personagem principal, como sugere o título, resolve, depois de morto, contar a história da sua vida através de uma seleção dos episódios mais relevantes, desde o seu nascimento até a sua morte. Essa narrativa não segue, porém, nenhuma sequência cronológica. Ele inicia pelo seu delírio e morte, depois conta o seu nascimento e vai alternando, sem qualquer critério lógico, episódios de diversas fases da sua vida, sempre com uma alta dose de humor e visão pessimista.
A narrativa é realizada em primeira pessoa, ou seja, há um narrador personagem que é também o protagonista da história, o finado autor. Como Brás Cubas está contando a sua própria história, ele é o que chamamos de “narrador não confiável”. Todos os fatos e demais personagens nos são apresentados a partir de sua ótica pessoal e subjetiva.
A característica mais marcante do estilo machadiano é a digressão. A narrativa de Machado de Assis é constantemente interrompida por comentários metalinguísticos, intertextualidades, histórias paralelas e, principalmente, análises filosóficas da sociedade e do indivíduo. Isso faz com que seus enredos fiquem sempre fragmentados e embaralhados. Essa dificuldade de leitura, no entanto, é compensada pelo humor inteligente e pela estrutura dinâmica e moderna de seus livros.
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas o foco narrativo centra-se no finado autor que, por sua condição de morto, não se compromete com a linearidade nem com a suposta seriedade dos vivos. Inspirado em Tristam Shandy, esse romance - digressivo por excelência e afeito à exposição exuberante de teorias - apresenta um herói demoníaco na acepção lukacsiana do termo, que convoca o leitor a acompanhá-lo nos volteios de sua subjetividade.
"[...] Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque não chegamos à parte narrativa dessas memórias. Todavia, importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado."
Nota-se que nesse passeio, o narrador está sempre a tomar o leitor pela mão, convida-o, pede-lhe mais que paciência, tolerância, provoca-o, caçoa dele, mas antes de tudo o tem em alta conta de espectador íntimo da sua capacidade de narrar.
A característica mais marcante deste livro é o pessimismo. Tudo é analisado a partir de uma visão negativa, seja em relação ao comportamento social ou aos dramas psicológicos das personagens. No entanto, esta visão pessimista fica, muitas vezes, disfarçada ou escondida sob a presença marcante do humor, principalmente a ironia. A observação dessa dicotomia pessimismo e humor é a principal chave para uma leitura compreensiva desse clássico da literatura brasileira.
Se o leitor não ficar atento, pode terminar a leitura do livro com uma visão positiva do protagonista. Uma leitura cuidadosa, no entanto, mostra que Brás Cubas é um boa vida, arrogante e incompetente, membro de uma elite endinheirada e improdutiva. Essa situação privilegiada permite que Brás Cubas deboche da sociedade e seus membros com uma ironia sarcástica que não poupa ninguém.
Por fim, a obra configura-se em crítica à elite burguesa carioca do século XIX. Brás Cubas é o seu representante — dono de escravos, fútil, superficial, preocupado com aparências. Ele segue a trajetória de um burguês da época: tem uma amante com quem gasta dinheiro, estuda na Europa, consegue um diploma, tenta a carreira política e, para isso, precisa de um casamento. Além disso, valoriza as aparências, o título, a origem social, sem contribuir, de fato, para o crescimento do país.
Fontes:
Micheliny Verunschk, em Discutindo a Literatura
quarta-feira, 10 de março de 2021
Machado de Assis no cinema e na TV
Não são raros os lançamentos de filmes, minisséries, novelas ou peças teatrais inspirados nos textos de Machado.
Fiz aqui uma seleção de algumas das obras inspiradas no maior escritor da Língua Portuguesa. Vamos a elas:
2. O enfermeiro
3. Noite de Almirante6. Memórias Póstumas de Brás Cubas
8. Capitu - Inspirado em Dom Casmurro
9. Helena
10. Azyllo muito louco, baseado em O alienista
sexta-feira, 5 de março de 2021
Que tal ler Machado de Assis em quadrinhos?
É inegável que os quadrinhos motivam e incentivam adolescentes e adultos a iniciarem suas viagens literárias e, assim vem contribuindo para o aumento da leitura dos clássicos literários, porém está faltando divulgação e incentivo.
Machado de Assis não poderia ficar de fora dessa nova roupagem literária. Em seu artigo "Heranças Machadianas", na Revista Discutindo Literatura, edição especial, Júlio Rasek, diz:
"No teatro, na música, nas histórias em quadrinhos ou no cinema, o legado de Machado de Assis ganhou novas versões, pois a herança deixada por ele vai muito além dos textos que ele produziu". Para ele talvez o maior legado de Machado seja ter criado um universo ímpar, que hoje impressiona ao ultrapassar com tanto vigor e atualidade as fronteiras conhecidas como Literatura. Isso é notado, por exemplo, na versatilidade de suas histórias e na humanidade trágica e cômica de seus personagens, prontos a vestirem uma roupagem moderna.
Não importa o segmento artístico, a estética criada pelo imortal literato orbita em um espaço completamente inexplorado e repleto de possibilidades. Não é por acaso que, nos últimos anos, a fantasia machadiana vem sendo recontada de maneira totalmente nova. É o caso das histórias em quadrinhos - as HQs -, adaptação da obra de Machado de Assis provavelmente impensada pelo autor, até porque, assim como o cinema e a televisão, tais meios não faziam parte da sua realidade."
Portanto, ler Machado de Assis em quadrinhos abre um leque de possibilidades de leitura e melhor aina, abrange um público leitor bem maior.Já temos nas livrarias várias obras machadianas adaptadas para os quadrinhos, entre elas temos: O Alienista, Conto de escola, Uns Braços, Causa Secreta, O enfermeiro, A Cartomante, om Casmurro, Memórias Póstumas e Brás Cubas e Quincas Borbas.
Então vamos aproveitar e começar a viajar nesse universo maravilhoso de Machado de Assis, abra o link abaixo e comece a explorar essa nova roupagem de Machado:
https://issuu.com/editorapeiropolis/docs/conto_de_escola/2
Características da obra Machadiana (2)
Machado de Assis busca inspiração nas ações rotineiras do homem. Penetrando na consciência das personagens para sondar-lhes o funcionamento. Machado mostra-nos de maneira impiedosa e aguda, a vaidade, a futilidade, a hipocrisia, a ambição, a inveja e a inclinação ao adultério através de suas personagens. Como o escritor capta sempre os impulsos contraditórios existentes em qualquer ser humano, torna-se difícil classificar suas personagens em boas ou más, além disso, vasculhando a burguesia da época que vivia de acordo com o convencionalismo, Machado desmascara o jogo das relações sociais, enfatizando o contraste entre a essência e a aparência. O sucesso financeiro é quase o objetivo da vida dessas personagens.
Características:
1 - Quanto à visão de mundo:
1.1- Pessimismo: revela uma visão trágica e amarga da existência humana. Esse pessimismo é uma constatação de que o homem se deforma por causa de um sistema social que o leva a torna-se hipócrita para ser aceito pela opinião pública.
Ex: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)
1.2- Humor: é uma espécie de válvula de escape diante da constatação da miserável condição humana. Esse humor, ás vezes irreverente, pode transformar-se em ironia e tem função crítica, pois leva o leitor a refletir sobre a condição humana.
Ex: " Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos." "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)
1.3- Denúncia da hipocrisia e do egoísmo: no universo machadiano, os bons sentimentos escondem sempre outra face, a do egoísmo e da dissimulação.
Ex: "Quem não sabe que o pé de cada bandeira pública, ostensiva, há muitas vezes outras bandeiras modestamente particulares que se hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não raras vezes lhe sobrevivem?" (Memórias Póstumas de Brás Cubas)
1.4- Visão da natureza como mãe e inimiga: a natureza - considerada aqui como todas as forças que estabelecem e conservam a ordem do universo - é ao mesmo tempo mãe (vida) e inimiga (morte) do homem. Mãe porque criou o ser humano; inimiga, porque mantém-se impassível diante do sofrimento, que só terá fim com a morte. A natureza mata quando não necessita mais do indivíduo. (Memórias Póstumas de Brás Cubas)
2. Quanto ás personagens:
- Suas personagens, longe de serem heróis ou heroínas defensores dos fracos, perfeitos e íntegros, são criaturas complexas. São homens e mulheres comuns, dotados de sentimentos contraditórios, complexos, como qualquer ser humano. São sujeitas à atuação das forças sociais, como por exemplo: paixão pelo dinheiro, egoísmo, medo da opinião alheia, dissimulação, vaidade.
Ex: "[Marcela] negociava com o único fim de acudir à paixão pelo lucro, que era o verme roedor daquela existência." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)
"A multidão atraía-me, o aplauso namorava-me." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)
3. Quanto ao processo narrativo:
- Machado preocupa-se muito mais com a análise das personagens do que com a ação. Por isso, em suas narrativas, pouca coisa "acontece": há poucos fatos em suas histórias e muita reflexão.
- Outra característica a prosa machadiana é a conversa com o leitor e a análise que o autor faz da própria narrativa. Muitas vezes o narrador interfere na história que conta: conversa com o leitor, antecipa fatos, abrevia ou alonga os capítulos e faz reflexões, que aparentemente, nada têm a ver com a história.
Ex: "Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)
"Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contradição cadavérica ..." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)
4. Quanto à temática:
- Nos contos e romances machadianos da segunda fase, os temas são os seguintes: a relatividade dos conceitos normais, o tédio, a loucura, a vaidade, o adultério, a contradição entre aparência e essência, a predominância do bem sobre o mal.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021
Características da obra de Machado e Assis (1)
- Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borbas. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Cap. CLX)
A primeira fase da ficção machadiana: romântica
A segunda fase da ficção machadiana: realista
Pessimismo: o pessimismo é presente em sua obra, mas essa visão pessimista do autor era decorrente de um reflexão sem ilusões da realidade. Um exemplo clássico é o fechamento do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, no qual o protagonista afirma “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”, após relembrar todos os anos de sua vida fazendo parte da classe dominante fluminense.
Como se pode notar, há um avanço gigantesco entre a primeira e a segunda fase de Machado de Assis, demonstrando um amadurecimento que permitiu alçar seu nome entre os grandes da literatura brasileira. As principais obras da segunda fase do autor são: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Papéis Avulsos, Histórias sem Data, Quincas Borba, Várias Histórias, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memorial de Aires.





