quinta-feira, 25 de março de 2021

Gil Vicente em Auto da Índia


Há alguns anos fiz a adaptação do texto de Gil Vicente, o Auto da Índia para encenar com meus alunos do Ensino Médio, quando estávamos estudando Humanismo e Gil Vicente. Vejam como ficou:

AUTO DA ÍNDIA (adaptação)

Á farsa seguinte chamam Auto da Índia . Foi fundada sobre que uma mulher, estando já embarcado para a Índia seu marido, lhe vieram dizer que estava desaviado e que já não ia; e ela de pesar, está chorando e fala-lhe uma sua criada. Foi feita em Almada, representada à muito católica rainha Dona Lianor. Era de 1509 anos. Entram nela estas figuras: Ama, Moça, Castelhano, Lemos, Marido.

Moça:
(chorando) - Jesus! Jesus! O que está acontecendo?
                                 E  porque o amo já vai partir?

Ama: Eu lá vou chorar por isso? Já vai tarde!

Moça: Por minha alma que pensei que a senhora chorava pelo amo!

Ama: Por que eu chorarei por esse demo?
           Até parece que fico triste com isso! (com cinismo)

Moça: Então por que estais tristes?
            Diga-me, pela sua vida!

Ama: Ora, deixe-me! Estão dizendo que ele não vai mais. (triste)

Moça: Quem disse essa mentira?

Ama: Ah, disseram-me que com certeza ele não partirá agora!

Moça: Como, se eles já estão em Restelo? Só se virem a nado!

Ama: Ah, queria tanto que ele fosse embora!

Moça: Não se preocupe, ele já muito vai longe!

Ama: Que o diabo o leve para a índia, pois meu coração está amargurado, parece que vai sair de mim!

Moça: Não fique assim, eu irei saber se é verdade!

Ama: Vá, vá com minha bênção.

(Vai Moça e fica Ama dizendo)

Ama: Rogo por Santo Antonio que nunca mais ele volte aqui!
           Quem não se não enfada
           De um homem desse?

Moça: (vem cantando) - Dê-me um prêmio, Senhora, 
                                        Ele já vai longe, em alto mar! 

Ama: Te dou uma touca de seda.

Moça: Ou, quando ele voltar dê-me do que ele lhe trouxer!

Ama: Nem me lembre desse dia!
           Agora vamos é aproveitar! (alegre)

Moça: (falando ao público, à parte) - Virtuosa está minha Ama!
                                                              Tenho até pena do amo!

Ama: O que tu estás falando aí?

Moça: Ah, nada, falo com esta cama!!! (fala disfarçando)

Ama:  Essa cama, sei ...
            Me dá essa agulha aí (mostrando para o público) Eu não fiarei um fio sequer, ele me              deixou sem nada!

Moça: (falando à parte para o público) - Mentira!!!
            Deixou-lhe para três anos: trigo, azeite, mel e                                                                             panos.

Ama: Que droga tanto falas? Não estou entendendo?

Moça: Ah, estou dizendo que quem fica assim sem nada como a senhora .... coitada, né?

Ama: Ah, ah, ah, ah, ah!
          Estás muito graciosa!
          Quem é moça e formosa não fica chorando a má sorte.
          Se ele foi viajar ...
          Quem vai esperar tanto?
          Que Deus me perdoe, na hora de minha morte.
          Mas envelhecer esperando pelo vento?
          Serei uma imbecil se fizer o contrário!

Castelhano: Paz seja nesta casa!

Ama: Você? Pensei que fosse alguém!

Castelhano: Não sou nada para a senora?

Ama: Bem que ventos foram esses que lhe trouxeram?
           Não me diga que quer ficar aqui?

Castelhano: Vim falar com a senora, pois desde aquele dia morro de saudade!!

Ama: Não me faça rir! Ande vá embora!

Castelhano: Oh, pela luz de todo Portugal,
                      Pielo amore que sinto pela senora, não me mande ir embora. Sei que seu                                  marido já viajou.

Ama: Sim, ele foi antes de ontem.

Castelhano: Que yo diabo o leve!
                      Para minha felicidade, posso gozar com esta alegria!

Ama: (para a moça) -  Vai ver o cachorro que está lambendo as tigelas!

Moça: São os gatos que estão lambendo as tigelas.

Castelhano:  O que há com a senora, falo em alho e a senora vem com bugalhos!

Ama: Se o senhor só fala besteira, falaremos em quê?

Castelhano: Não me faça uma desfeita, senão faço uma asneira
                     A senora pensa que sou o quê?
                     Sou homem e muito homem,
                     Trago no corazon um leon!

Ama: Esta bem, queres passar a noite aqui?
           Ainda está muito cedo; venha mais tarde, então conversaremos.

Castelhano: A que horas posso vir?

Ama: Ás nove horas em ponto.
           Atira uma pedrinha na janela do meu quarto,
           Então lhe abrirei de muito boa vontade:
           pois você é homem de verdade
           não o deixarei na mão.

Castelhano: Sabes o que ganhas com isso?
                      Yo mundo! Yo mundo é todo seu! 
                      Pensa que só tenho essa roupa que vês?
                      Tenho muito mais do que pensas!
                      Beijo suas mãos, senora, com sua licença!

Ama: Vá embora e volte mais tarde!

Moça: Jesus! Como é fanfarrão!
            Vai ver que esse demônio é ladrão. Não se fie nele!

Ama: Ah, já lhe prometi abrir a janela à noite! (fala com cinismo)
          Ah, lembra daquele meu antigo namorado? Ele esteve aqui.

Moça: Quem? Aquele conquistador sombreiro? 
            Ele é safado, não pensa em outra coisa, o coitado, senão em dinheiro!

Ama: Ele não é desse tipo, tu estás enganada!

Moça: Pois sim! Ele está para aparecer aqui de novo!

Lemos: Ô de casa!

Ama:  Quem está aí?

Lemos: Vosso apaixonado, minha senhora!

Ama: Oh, que tamanha mesura!
           Sou rainha, por acaso?

Lemos: Você é minha imperadora!
               Mas como estás?

Ama:  Meus marido foi-se à Índia.

Lemos: A senhora está tão bela!
              O que me pedir eu faço.

Ama: Peço que vá embora!

Lemos: Quem está atirando pedras na janela?

Ama: (disfarçando) -  São meninos que vivem brincando na rua.

Lemos:  Não me diga, minha senhora!!!

Ama: Vá, vá aqui para a cozinha que estão me chamando.

Castelhano:  Abra-me la janela, la senora prometeu abrir!!!

Ama: Fale baixo! Infelizmente, não posso deixá-lo entrar agora,
           Meu irmão está aqui! Disfarce, disfarce!!!

                           (À parte para o público) 

           Ora viste o azarado? Que falta de sorte!!!

Lemos: Com que a senhora está falando?

Ama: Com ninguém (disfarçando). 
          O senhor quer jantar? Eu não tenho nada que lhe dar.

Lemos: Mande a Moça ao mercado comprar tudo o que está faltando.
              Pois dinheiro é que não falta! (começa a cantar alto)

Ama: O senhor não pode cantar mais baixo?

Lemos:  Ora, deixe-me cantar, senhora!

Ama: O que a vizinhança vai dizer, que quando meu marido não está,
           Ponho o senhor para cantar na minha casa!

                     (Ouve uma pedra na janela)

          Vá para esse outro quarto, que já estou ouvindo barulho,
          Tenho tanto medo da  falação do povo!!!

                 (Chega-se à janela e fala baixo)

Ama: Meu irmão ainda está aqui!

Castelhano: Que diabo ele está fazendo la essa hora?
                      Não demora vai amanhecer!

Ama: Venha aqui outro dia!

Castelhano:  Ah, senora, que raiva sinto de vós!
                      Abra-me la janela, pielo amore de Dios!

Ama: Não posso, volte amanhã à noite!

Castelhano: Assossiega, corazon! Dorme, leon!
                     Juro que la próxima vez isto não ocorrerá!
                     Pois vou destruir lo mundo, queimar la casa, depois queimar la cidad!

Ama: Por que tanta jura? Isso é só conversa!

Lemos: O que é isso? O que está acontecendo aí? (fala desconfiado)

Ama: (disfarçando) - Não é nada! Já está para amanhecer, não está na hora de o senhor ir embora? Já namoramos, já nos divertimos, volte outro dia ...

(Lemos se despede e sai)

Moça: (À para público) - Oh, que mesuras tamanhas!
            Quantas artes, quantas manhas, sabe fazer minha ama!
            Um na rua, outro na cama!

Ama: Que falas aí?

Moça:  (disfarçando) -  Nada, estou falando com meus botões que já fazem dois anos que meu amo partiu. Não vai demorar muito o amo há de voltar para casa. 
              Senhora, irei ver se o amo já está chegando! (Sai)

Ama: Mas que graça seria, se meu marido voltasse vivo a Lisboa para minha companhia!
           Isto não pode acontecer, quero mais é que ele morra! 
           Vai, vai comprar o que comer, tens muito o que fazer, não demore!

Moça: Aí, senhora, venho morta! O amo chega hoje aqui!

Ama: Má notícia tu me trazes, sua excomungada torta!

Moça: A embarcação em que ele foi, vem com muita alegria.
            Juro por minha vida, minha senhora, que não falo mentira.

Ama: Que minha mãe me mate se eu der uma prova de alegria com a volta dele.
           Ele não vai ter nada de mim, nem o que comer!

Marido:  Olá!

Ama: (para o público, falando baixo) - Que péssima hora é esta, ele chegou!
           Quem é?

Marido:  Homem de pé!

Ama: (para o público) - Quer fazer graça é?! Sobe, sobe para cima!

Moça: É o nosso amo, como veio rápido!

Ama: Teu amo? Jesus, Jesus!
            Pedes a ele tua recompensa!

Marido: Abraçai-me, minha amada.

Ama: Jesus, como estás negro e tostado!
           Não vos quero, não vos quero!

Marido: Mas eu quero a você, seja minha mulher!

Ama: Moça, o que é que tu estás olhando? 
          Vai depressa fazer logo a comida, enquanto conversamos!
           (disfarçando) - Ora como foi por lá?

Marido: Passei por muitas aventuras!

Ama: (fingindo) - E eu, oh quanto chorei, chorei muito quando a armada foi embora.
           E quando vi que ias mesmo partir, Jesus, eu fiquei doente, três dias não comi nada, minha alma queria sair.

Marido: A cem léguas daqui surgiu uma tormenta que nunca vi igual.

Ama: Isso foi na quarta-feira?

Marido: Sim, e começou de madrugada.

Ama: Pois é, eu fui de madrugada a nossa Senhora d'Oliveira, lhe prometi uma missa, e na quinta-feira fui ao Espírito Santo a outra missa também.
          Chorei tanto que ninguém nunca viu tanto pranto.
           Correste daquela tormenta?

Marido: Durou três dias. Demos a volta pelo mar
               A armada voava que o mar se espedaçava!
               Pelejamos e roubamos, corremos muitos perigos!

Ama: (com cinismo) - Olha só, os três dias, foram as minhas três romarias!
           O senhor lá correndo perigo e eu aqui a esmorecer, fazendo mil promessas, mil choros, mil orações!

Marido: Assim como havia de ser.

Ama: Juro que de tanta saudade nem pão não comia
           Ficava triste a cada dia!
           Carne, então, nunca comi!
           Onde não há marido tudo é tristeza, não há prazer nem alegria!
           E o senhor, lembrava de mim lá?

Marido: E como?

Ama: Duvido! Lá tem tantas índias formosas,
           E eu aqui triste, encerrada nesta casa, por causa de minha honestidade!

Marido: Ah, que nada, lá só há mortes, tantas brigas ...

Ama: Mas voltaste muito rico ...?

Marido:  Se não fosse o capitão, tinha trazido a minha parte: um milhão ...

Ama: Não me faça rir! Sua vida vale mais que qualquer riqueza!
           Louvado seja o Senhor que me trouxeste de volta!
           A armada veio muito carregada?

Marido: Vem tão doce e embandeirada!

Ama: Vamos lá, quero ir ver.

Marido: Se você sente prazer nisso, vamos!

Ama: Sim, sim, pois estou muito aborrecida aqui dentro de casa.

                     (Vão-se a nau e fenece esta farsa)        

sexta-feira, 19 de março de 2021

O defunto autor


Memórias Póstumas de Brás Cubas é o maior clássico da literatura realista de língua portuguesa. Publicado em 1881, este livro marca o início oficial do realismo no Brasil e ainda serve de divisão entre a fase romântica e a realista na obra autor, marcando o início da fase mais madura e qualificada de Machado.

A estética realista-naturalista predominou na segunda metade do século XIX. Após a euforia romântica idealista do início, o século XIX retomava uma visão de mundo baseada na razão e na observação objetiva da natureza. O cientificismo dominava as filosofias deste período, marcado por avanços tecnológicos e urbanização acelerada. A obra mostra, de forma realista, portanto, não idealizada, a decadente elite burguesa do Rio de Janeiro, ainda atrelada ao conservadorismo. Assim, o escritor ironiza os costumes burgueses de sua época, enquanto critica a hipocrisia e futilidade dessa classe.

Surgem então, nesse período, dois tipos de narrativas: o romance social, também chamado de romance naturalista, que analisava predominantemente o comportamento dos indivíduos em seu convívio na sociedade, e o romance psicológico, também chamado de romance realista, que analisava prioritariamente as contradições e angústias internas dos indivíduos. Embora todos os romances da época apresentassem características dos dois tipos de análise, sempre é possível determinar qual delas (social ou psicológica) prevalece. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas prevalece a narrativa psicológica das personagens, caracterizando-se, portanto, como romance realista. 

Memórias Póstumas é uma narrativa confusa e sem linearidade. O personagem principal, como sugere o título, resolve, depois de morto, contar a história da sua vida através de uma seleção dos episódios mais relevantes, desde o seu nascimento até a sua morte. Essa narrativa não segue, porém, nenhuma sequência cronológica. Ele inicia pelo seu delírio e morte, depois conta o seu nascimento e vai alternando, sem qualquer critério lógico, episódios de diversas fases da sua vida, sempre com uma alta dose de humor e visão pessimista.

A narrativa é realizada em primeira pessoa, ou seja, há um narrador personagem que é também o protagonista da história, o finado autor. Como Brás Cubas está contando a sua própria história, ele é o que chamamos de “narrador não confiável”. Todos os fatos e demais personagens nos são apresentados a partir de sua ótica pessoal e subjetiva. 

A característica mais marcante do estilo machadiano é a digressão. A narrativa de Machado de Assis é constantemente interrompida por comentários metalinguísticos, intertextualidades, histórias paralelas e, principalmente, análises filosóficas da sociedade e do indivíduo. Isso faz com que seus enredos fiquem sempre fragmentados e embaralhados. Essa dificuldade de leitura, no entanto, é compensada pelo humor inteligente e pela estrutura dinâmica e moderna de seus livros.

Em Memórias Póstumas de Brás Cubas o foco narrativo centra-se no finado autor que, por sua condição de morto, não se compromete com a linearidade nem com a suposta seriedade dos vivos. Inspirado em Tristam Shandy, esse romance - digressivo por excelência e afeito à exposição exuberante de teorias - apresenta um herói demoníaco na acepção lukacsiana do termo, que convoca o leitor a acompanhá-lo nos volteios de sua subjetividade.

"[...] Veja o leitor a comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque não chegamos à parte narrativa dessas memórias. Todavia, importa dizer que este livro é escrito com pachorra, com a pachorra de um homem já desafrontado da brevidade do século, obra supinamente filosófica, de uma filosofia desigual, agora austera, logo brincalhona, coisa que não edifica nem destrói, não inflama nem regela, e é todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado."

Nota-se que nesse passeio, o narrador está sempre a tomar o leitor pela mão, convida-o, pede-lhe mais que paciência, tolerância, provoca-o, caçoa dele, mas antes de tudo o tem em alta conta de espectador íntimo da sua capacidade de narrar. 

A característica mais marcante deste livro é o pessimismo. Tudo é analisado a partir de uma visão negativa, seja em relação ao comportamento social ou aos dramas psicológicos das personagens. No entanto, esta visão pessimista fica, muitas vezes, disfarçada ou escondida sob a presença marcante do humor, principalmente a ironia. A observação dessa dicotomia pessimismo e humor é a principal chave para uma leitura compreensiva desse clássico da literatura brasileira.

Se o leitor não ficar atento, pode terminar a leitura do livro com uma visão positiva do protagonista. Uma leitura cuidadosa, no entanto, mostra que Brás Cubas é um boa vida, arrogante e incompetente, membro de uma elite endinheirada e improdutiva. Essa situação privilegiada permite que Brás Cubas deboche da sociedade e seus membros com uma ironia sarcástica que não poupa ninguém.

Por fim, a obra configura-se em crítica à elite burguesa carioca do século XIX. Brás Cubas é o seu representante — dono de escravos, fútil, superficial, preocupado com aparências. Ele segue a trajetória de um burguês da época: tem uma amante com quem gasta dinheiro, estuda na Europa, consegue um diploma, tenta a carreira política e, para isso, precisa de um casamento. Além disso, valoriza as aparências, o título, a origem social, sem contribuir, de fato, para o crescimento do país.

Fontes:

Português. com

Micheliny Verunschk, em Discutindo a Literatura



quarta-feira, 10 de março de 2021

Machado de Assis no cinema e na TV

 Não são raros os lançamentos de filmes, minisséries, novelas ou peças teatrais inspirados nos textos de Machado.

Fiz aqui uma seleção de algumas das obras inspiradas no maior escritor da Língua Portuguesa. Vamos a elas:

1. Quincas Borbas 

2. O enfermeiro

3. Noite de Almirante


sexta-feira, 5 de março de 2021

Que tal ler Machado de Assis em quadrinhos?



Que tal ler Machado de Assis em quadrinhos?  
Apesar de muitos ainda insistirem com o preconceito contra esse gênero, a verdade é que os quadrinhos são uma excelente porta de entrada para o universo machadiano, já que para os iniciantes no mundo da leitura, os textos de Machado podem apresentar uma certa dificuldade.

É inegável que os quadrinhos motivam e incentivam adolescentes e adultos a iniciarem suas viagens literárias e, assim vem contribuindo para o aumento da leitura dos clássicos literários, porém está faltando divulgação e incentivo.

Machado de Assis não poderia ficar de fora dessa nova roupagem literária. Em seu artigo "Heranças Machadianas", na Revista Discutindo Literatura, edição especial, Júlio Rasek, diz:

"No teatro, na música, nas histórias em quadrinhos ou no cinema, o legado de Machado de Assis ganhou novas versões, pois a herança deixada por ele vai muito além dos textos que ele produziu". Para ele talvez o maior  legado de Machado seja ter criado um universo ímpar, que hoje impressiona ao ultrapassar com tanto vigor e atualidade as fronteiras conhecidas como Literatura. Isso é notado, por exemplo, na versatilidade de suas histórias e na humanidade trágica e cômica de seus personagens, prontos a vestirem uma roupagem moderna. 

Não importa o segmento artístico, a estética criada pelo imortal literato orbita em um espaço completamente inexplorado e repleto de possibilidades. Não é por acaso que, nos últimos anos, a fantasia machadiana vem sendo recontada de maneira totalmente nova. É o caso das histórias em quadrinhos - as HQs -, adaptação da obra de Machado de Assis provavelmente impensada pelo autor, até porque, assim como o cinema e a televisão, tais meios não faziam parte da sua realidade."


Portanto, ler Machado de Assis em quadrinhos abre um leque de possibilidades de leitura e melhor aina, abrange um público leitor bem maior. 

Já temos nas livrarias várias obras machadianas adaptadas para os quadrinhos, entre elas temos: O Alienista, Conto de escola, Uns Braços, Causa Secreta, O enfermeiro, A Cartomante, om Casmurro, Memórias Póstumas e Brás Cubas e Quincas Borbas.

Então vamos aproveitar e começar a viajar nesse universo maravilhoso de Machado de Assis, abra o link abaixo e comece a explorar essa nova roupagem de Machado:

https://issuu.com/editorapeiropolis/docs/conto_de_escola/2








Características da obra Machadiana (2)


Machado de Assis busca inspiração nas ações rotineiras do homem. Penetrando na consciência das personagens para sondar-lhes o funcionamento. Machado mostra-nos de maneira impiedosa e aguda, a vaidade, a futilidade, a hipocrisia, a ambição, a inveja e a inclinação ao adultério através de suas personagens. Como o escritor capta sempre os impulsos contraditórios existentes em qualquer ser humano, torna-se difícil classificar suas personagens em boas ou más, além disso, vasculhando a burguesia da época que vivia de acordo com o convencionalismo, Machado desmascara o jogo das relações sociais, enfatizando o contraste entre a essência e a aparência. O sucesso financeiro é quase o objetivo da vida dessas personagens.

Características:

1 - Quanto à visão de mundo:

1.1- Pessimismo: revela uma visão trágica e amarga da existência humana. Esse pessimismo é uma constatação de que o homem se deforma por causa de um sistema social que o leva a torna-se hipócrita para ser aceito pela opinião pública.

Ex: "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

1.2- Humor: é uma espécie de válvula de escape diante da constatação da miserável condição humana. Esse humor, ás vezes irreverente, pode transformar-se em ironia e tem função crítica, pois leva o leitor a refletir sobre a condição humana.

Ex: " Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos."  "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

1.3- Denúncia da hipocrisia e do egoísmo: no universo machadiano, os bons sentimentos escondem sempre outra face, a do egoísmo e da dissimulação.

Ex: "Quem não sabe que o pé de cada bandeira pública, ostensiva, há muitas vezes outras bandeiras modestamente particulares que se hasteiam e flutuam à sombra daquela, e não raras vezes lhe sobrevivem?" (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

1.4Visão da natureza como mãe e inimiga: a natureza - considerada aqui como todas as forças que estabelecem e conservam a ordem do universo - é ao mesmo tempo mãe (vida) e inimiga (morte) do homem. Mãe porque criou o ser humano; inimiga, porque mantém-se impassível diante do sofrimento, que só terá fim com a morte. A natureza mata quando não necessita mais do indivíduo. (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

2. Quanto ás personagens:

  • Suas personagens, longe de serem heróis ou heroínas defensores dos fracos, perfeitos e íntegros, são criaturas complexas. São homens e mulheres comuns, dotados de sentimentos contraditórios, complexos, como qualquer ser humano. São sujeitas à atuação das forças sociais, como por exemplo: paixão pelo dinheiro, egoísmo, medo da opinião alheia, dissimulação, vaidade.

Ex: "[Marcela] negociava com o único fim de acudir à paixão pelo lucro, que era o verme roedor daquela existência." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

       "A multidão atraía-me, o aplauso namorava-me." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

3. Quanto ao processo narrativo:

  • Machado preocupa-se muito mais com a análise das personagens do que com a ação. Por isso, em suas narrativas, pouca coisa "acontece": há poucos fatos em suas histórias e muita reflexão.

  • Outra característica a prosa machadiana é a conversa com o leitor e a análise que o autor faz da própria narrativa. Muitas vezes o narrador interfere na história que conta: conversa com o leitor, antecipa fatos, abrevia ou alonga os capítulos e faz reflexões, que aparentemente, nada têm a ver com a história.

Ex: "Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direto à narração." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

            "Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contradição cadavérica ..." (Memórias Póstumas de Brás Cubas)

4. Quanto à temática:

  • Nos contos e romances machadianos da segunda fase, os temas são os seguintes: a relatividade dos conceitos normais, o tédio, a loucura, a vaidade, o adultério, a contradição entre aparência e essência, a predominância do bem sobre o mal.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Características da obra de Machado e Assis (1)

Machado de Assis é o grande romancista brasileiro do século XIX, sua obra assume uma originalidade despreocupada com as modas literárias dominantes de seu tempo. 

A obra machadiana reflete as leituras do escritor, demonstrando estar em sintonia com o espírito da época. Escreve com correção e bom gosto, aproxima a linguagem escrita da falada, expondo modismos. Se, por um lado, os realistas que seguiam Flaubert esqueciam do narrador por detrás da objetividade narrativa, e os naturalistas, à exemplo de Zola, narravam todos os detalhes do enredo, Machado de Assis optou por abster-se de ambos os métodos para cultivar o fragmentário e interferir na narrativa com o objetivo de dialogar com o leitor, comentando seu próprio romance com filosofias, metalinguagens e intertextualidade.

Ou seja, sua narrativa apresenta peculiaridades que denotam a preocupação consciente do escritor com a linguagem. Constantemente, o leitor é convocado a participar da história que revela sua forma ficcional, estabelecendo uma metalinguagem, ou seja, a obra chama atenção para sua ficcionalidade, volta-se para si mesma, na tentativa de se examinar, como a justificativa que se encontra no primeiro capítulo de Dom Casmurro, tentando explicar o título do livro.

As obras de ficção machadianas possuem na maior parte das vezes um humor reflexivo, ora amargo, ora divertido. De fato, uma de suas características mais apreciadas é a ironia, que os estudiosos consideram a "arma mais corrosiva da crítica machadiana". Observa-se essas características na forma como descreve o caráter de suas personagens que, muitas vezes,  é ambígua, permitindo diferentes opiniões. O narrador vai contando a história em meio a ironias e ceticismo, compondo um humor de difícil definição, mas que se revela em desdém contra as convenções humanas, ridicularizando-as, desnudando as hipocrisias mais íntimas, criando tipos imortais.

Nota-se, também em suas obras um processo próximo ao do "impressionismo associativo", há de certo uma ruptura com a narrativa linear, de modo que as ações não seguem um fio lógico ou cronológico, mas que é relatado conforme surgem na memória das personagens ou do narrador. 

De acordo com os acadêmicos também há a constante presença do pessimismo. Suas últimas obras de ficção assumem uma postura desencantada da vida, da sociedade, e do homem. Crê-se que não acreditava em nenhum valor de seu tempo e nem mesmo em algum outro valor e que o importante para ele seria desmascarar o cinismo e a hipocrisia política e social. O capítulo final de Memórias Póstumas de Brás Cubas é exemplo cabal do pessimismo que vigora na fase madura de Machado de Assis e do narrador morto:
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borbas. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: — Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. (Memórias Póstumas de Brás Cubas, Cap. CLX)
A complexidade de sua obra se reflete na caracterização psicológica de suas personagens e no retrato criado para a sociedade da época. A paisagem preferida é a humana, expressa através de sutilezas que dão originalidade ao trabalho. Os temas comuns são: o adultério, o casamento, visto como forma de comércio ou troca de favores, a exploração do homem pelo próprio homem. As mulheres são o ponto forte da criação machadiana. A figura feminina representa mulheres recatadas, sedutoras, adúlteras, fatais e dominadoras. Elas estão presentes também em seus contos, cerca de quase duzentos.

Afim de melhor compreensão dessas caraterísticas vamos organizá-las  nas duas fases em que a obra machadiana foram divididas: a primeira que ainda apresenta características do Romantismo; e a segunda, que inaugura o Realismo no Brasil.

A primeira fase da ficção machadiana: romântica

Apesar de mais próximo da era romântica, Machado de Assis, em sua primeira fase, quebra com Ressurreição (1872) alguns traços característicos dos românticos, como a idealização exacerbada do amor e da mulher e revela o que há de melhor no escritor cearense, enaltecendo o aspecto urbano e social, formadores do indivíduo. Ainda, nesse período, escreve grande parte de sua obra teatral. Entretanto, nesse período de transição em que estava, o autor fluminense não era considerado romântico, nem realista. 
As principais características dessa fase são:

Conformismo com os valores da época: Machado de Assis escreve para uma classe burguesa e não se atenta – ou busca não demonstrar em sua escrita – os valores deturpados da época. De forma geral, o autor compactua com as hipocrisias que, posteriormente na segunda fase, seriam desnudadas.

Esquematismo psicológico: os romances inaugurais de Machado geralmente não possuem personagens com profundidade psicológica, isto é, são planos em sua essência. Machado constrói figuras que ficam na dicotomia bom e mau e, com isso, não há nenhuma discussão realmente aprofundada a partir delas.

Linguagem carregada de lugares-comuns: apesar de haver em alguns momentos a utilização de recursos estilísticos interessantes, a primeira fase do autor distancia-se da complexidade narrativa e do uso da linguagem da segunda fase. 
As principais obras da primeira fase de Machado de Assis são: Contos Fluminenses, Ressurreição, Histórias da Meia-Noite, A Mão e a Luva, Helena, Iaiá Garcia.

A segunda fase da ficção machadiana: realista

Machado de Assis, em sua segunda fase, reinventou o romance brasileiro. Aqui há um aprofundamento no psicológico de suas personagens e a historicidade dá lugar para o íntimo do ser humano, seus anseios, além da própria hipocrisia da sociedade burguesa, desnudada em livros como Memórias Póstumas de Brás CubasAlfredo Bosi afirma que é nessa fase que o escritor desenvolve a "análise das máscaras que o homem afivela à consciência tão firmemente que acaba por identificar-se com elas". As principais características dessa fase são: 
Destruição da narrativa linear: o narrador torna-se o centro do eixo narrativo e, portanto, a linearidade do enredo dissolve-se. Machado de Assis brinca com o leitor, que é lançado ao meio de dúvidas em relação às personalidades ambíguas das personagens.
Análise psicológica: o interior das personagens é desnudado e o modo de ver o exterior muda conforme as reações psicológicas delas. Um grande exemplo disso é o narrador em primeira pessoa de Dom Casmurro que, a todo momento, tenta provocar e convencer o leitor de seu ponto de vista.
Aparência e essência: há sempre essa dualidade nas obras machadianas da segunda fase. De um lado, vê-se o amor em contraponto à incapacidade de amar; a solidariedade frente ao egoísmo; a autenticidade e a dissimulação; a luta entre os valores morais das personagens; o racionalismo e o instinto. O mais interessante, porém, é que toda essa análise não esgota a imensidão das ações humanas descritas nas obras.
Análise dos valores sociais: a ficção machadiana, ao focar no interior das personagens, também permite desconstruir os valores das classes dominantes da sociedade brasileira. A vida social que reverbera na obra de Machado de Assis permite discutir sobre diversos temas, como o casamento, a escravidão e a política. Romances como Memórias Póstumas de Brás Cubas e contos como Pai contra Mãe são o ápice da incisiva crítica social de Machado.

Pessimismo: o pessimismo é presente em sua obra, mas essa visão pessimista do autor era decorrente de um reflexão sem ilusões da realidade. Um exemplo clássico é o fechamento do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, no qual o protagonista afirma “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria”, após relembrar todos os anos de sua vida fazendo parte da classe dominante fluminense.

Humor: Machado de Assis recebeu influências de autores ingleses como Jonathan Swift e Laurence Sterne, especialmente no que diz respeito ao humor presente em sua obra. O leitor ri, mas, no final, fica desolado com os fatos apresentados.
A desfaçatez de classe: por meio de personagens que estão em uma posição social abastada, Machado de Assis consegue denunciar suas imoralidades, seus desvios. Brás Cubas, por exemplo, apresenta diversos fatos em sua narração que evidenciam o descaramento moral da época.
Perfeição expressiva: a linguagem machadiana é inventiva e com alto grau de refinamento. Mesmo que parte de seu vocabulário pareça antigo, há uma sensação dominante de modernidade estilística.

Como se pode notar, há um avanço gigantesco entre a primeira e a segunda fase de Machado de Assis, demonstrando um amadurecimento que permitiu alçar seu nome entre os grandes da literatura brasileira. As principais obras da segunda fase do autor são: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Papéis Avulsos, Histórias sem Data, Quincas Borba, Várias Histórias, Dom Casmurro, Esaú e Jacó, Memorial de Aires. 

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