terça-feira, 6 de maio de 2014

Simbolismo: características gerais


I. Origens e período: A estética simbolista surgiu oficialmente, no final do século XIX, em meio a um mundo cheio de indefinições e inquietações.  O precursor do Simbolismo é o francês Charles Baudelaire, com a publicação de “As Flores do Mal”, em 1857, porém, oficialmente, a publicação do Manifesto do Simbolismo, de Jean Moréas,  em 1886, na França, marca o início do Simbolismo, na Europa. Na época, o termo simbolismo foi usado em substituição ao termo decadentismo, que nomeava as tendências estéticas antipositivistas, antinaturalistas e anticientificistas, em outras palavras, o Simbolismo surgiu como uma reação  à objetividade do Realismo, Naturalismo e do Parnasianismo.
            Em Portugal, o Simbolismo teve como marco inicial a publicação de Oaristos, de Eugênio de Castro, em 1890, durando até 1915, época do surgimento da geração Orpheu, que desencadeia a revolução modernista no país, em muitos aspectos baseada nas conquistas da nova estética.
Já no Brasil, Inicia-se oficialmente em 1893, com a publicação de Missal (prosa poética) e Broquéis, de Cruz e Souza, considerado o maior representante do movimento no país, ao lado de Alphonsus de Guimarães.

II. Contexto histórico: Nas duas últimas décadas do século XIX, a Europa enfrentou um período de crise, gerada pela segunda Revolução Industrial. Do sistema capitalista emergiu uma nova ordem econômica, que beneficiava apenas a elite, em prejuízo da maioria da população, constituída pela classe média e pelo proletariado. Principais fatos históricos:
·      O grande progresso científico e tecnológico não consegue esconder a série de crise econômica na Europa, gerada segunda Revolução Industrial, que vai culminar com a chamada Grande Depressão (intranquilidade quanto aos rumos da economia, que começava a estagnar depois de um grande progresso, provocando o fechamento de fábricas e à falência de banqueiros).
·      Em consequência, aparecem duas classes sociais: os capitalistas, que vivem do lucro e da exploração da classe operária e a classe média, que estava em crise.
·      A decadência econômica põe por terra as esperanças materialistas dos positivistas.
·      Surgimento dos partidos socialistas que pregam o fim do Capitalismo, atraindo para suas organizações as classes operárias, enfraquecidas depois da industrialização.
·      A Europa vivia em grande tensão: o fantasma da guerra estava no ar (1ª guerra mundial, em 1914 e Revolução Russa, em 1917).

III. Contexto literário:
·      O Simbolismo surge nesse contexto de insatisfação com os rumos da política, que percebendo a falência do racionalismo e do materialismo, retoma os valores até então adormecidos: o idealismo e o misticismo. O sonho, o inconsciente, a metafísica e a religiosidade renascem na procura de um mundo ideal, fugindo ao racionalismo dos realista-naturalistas.
·      A atitude do poeta, agora é subjetiva, assemelhando-se aos românticos, com uma diferença: enquanto os românticos estavam no nível apenas das emoções, os simbolistas levam a efeito um mergulho mais profundo, mais radical, principalmente no que diz respeito ao misticismo (disposição para crer no sobrenatural).
·      Nesse mergulho, chegam ao subconsciente e ao inconsciente e lá se deparam com sensações que a lógica não é capaz de explicar. É esse mundo confuso que os simbolistas procuram transformar em poesia.
·       Como se distanciaram das preocupações positivistas, os simbolistas eram chamados de nefelibatas, ou seja, pessoas que andam com a cabeça fora do real, aqueles que vivem “nas nuvens”.

IV. Características da poesia simbolista
·      Linguagem evocativa: exploram recursos sonoros e visuais, pois a linguagem precisa ser fundamentalmente sugestiva para alcançar seu verdadeiro poder de evocar sensações e lembranças, ou seja, para os simbolistas, a realidade deveria ser expressa de maneira vaga, nebulosa, imprecisa e ilógica.

            “Nomear um objeto é suprimir três quartos do prazer do poema, que é feito da felicidade em adivinhar pouco a pouco; sugeri-lo, eis o sonho ... deve haver sempre enigma em poesia ...” (Mallarmé)
Ex: Vala comum de corpos que apodrecem,
       Esverdeada gangrena
       Cobrindo vastidões que fosforescem
       Sobre a esfera terrena” (Cruz e Sousa)

·      Subjetivismo profundo: desinteressado pela realidade objetiva, o simbolista volta-se para seu próprio “eu”, na busca da essência do ser humano, o inconsciente, o subconsciente e os estados de alma.
·      Expressividade sonora: “A música antes de qualquer coisa” era o postulado de Verlaine. Dotando o poema de expressividade sonora e valorizando o ritmo, a musicalidade, as aliterações, as assonâncias e os ecos, os simbolistas procuravam aproximar a poesia da música, afastando o poema de referências concretas, instaurando uma atmosfera vaga, indefinível e misteriosa. Ex:
“Vozes veladas, veludosas vozes,
  Volúpias dos violões, vozes veladas,
  Vagam nas velhas, vórtices velozes
  Dos ventos, vivas, vãs vulcanizadas.” (Cruz e Sousa)
·      Emprego abundante de sinestesia: relação que se estabelece entre diferentes sensações (cruzamento de sensações). Ex:
“Palpitando os mastros
  Ao som vermelho da canção de guerra”

  Como a doçura quente de um carinho..”

  E as vozes sobem claras, cantantes, luminosas.”
·      Conhecimento ilógico e intuitivo da realidade: para explorar o mundo visível, racional e objetivo, os simbolistas valorizam a intuição e os sentidos humanos (visão, tato, audição, etc.) como forma de percepção das essências, o lado obscuro das coisas que se esconde além da realidade visível.
·      Misticismo e espiritualismo: os simbolistas voltam-se para a fé, com um misticismo um tanto difuso, mas ligado à tradição cristã. A crença na existência de um mundo ideal produz como resultado um clima de fluidez e mistério. Considera o poeta como vidente de realidades transcendentais e a poesia como expressão de vidência mediúnica. No plano sintático-vocabular observam-se:
-Uso de vocábulos ligados ao místico e ao litúrgico: alma, infinito, desconhecido, essência, missal, breviário, hinos, salmos, ângelus, etc;
-O uso do conectivo “bíblico” e que tem essa denominação por ser bastante usado nos textos bíblicos;
-O emprego de iniciais maiúsculas no interior do verso, enfatizando o aspecto simbólico e alegórico dos vocábulos. Ex:
Como fantásticos signos
  Erram demônios malignos.

  Na brancura das ossadas
  Gemem as almas penadas.

  Lobisomens, feiticeiras
  Gargalham no luar das eiras.

  Os vultos dos enforcados

  Uivam nos ventos irados” (Cruz e Sousa)

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Figuras de Linguagem IV